CORRERIA VERSUS LENTIDÃO
Pe. Elton Vitoriano Ribeiro, SJ
Vivemos em tempos de
aceleração. Todos estamos muito ocupados. Trabalhos, viagens, vida familiar,
amigos, exercícios físicos – todos estamos o tempo todo ocupados com uma infinidade
de solicitações. Mesmo o tempo de descanso é inundado pelas redes sociais e a
internet. Não temos tempo a perder. O grande pecado de nossas sociedades é
ficar desocupado, pega mal, é sinal de preguiça e falta de criatividade. Em
sociedades capitalistas, perder tempo é perder dinheiro: Tempo é
dinheiro! (Time is Money!)
Diante dessa realidade
contemporânea, o filósofo Byung-Chul Han escreve mais um instigante
ensaio: Vida Contemplativa ou Sobre a Inatividade (2023).
Nesse texto, ele faz um elogio à inatividade, à lentidão, à paciência e à
contemplação. Para Han, a vida só recebe seu esplendor na inatividade. Ele
defende que é no silenciar-se que a vida adquire profundidade, é na inatividade
que a vida reluz e ganha intensidade, é na contemplação silenciosa que a vida
se nos revela profunda, intensa e incomensurável.
No entanto, não é esse o ritmo de
nossa sociedade. As sociedades capitalistas são caracterizadas pela utilidade,
pela funcionalidade, pela eficácia e pela velocidade. Trabalho e desempenho são
nossos novos mantras para os quais fazemos reverência cotidianamente. Hoje, a
existência humana está absolutamente absorvida pela atividade frenética. As
consequências desse frenesi são perigosas. Nossas sociedades se tornam
sociedades do consumo feroz e imediato que isolam e separam as pessoas, que as
transformam em consumidores solitários e dependentes de mais conteúdo
informacional que é, religiosamente, absorvido sem digestão. Nessas sociedades
todos estão conectados, mas ninguém sabe escutar. É uma comunicação sem
comunidade, na qual o ruído da comunicação, e da informação em excesso, cria
uma sociedade onde ninguém escuta, mas todos produzem conteúdo falando sem
cessar.
Um exemplo claro desse estado
atual é a dificuldade em sermos pacientes e lermos poesia. Não temos mais
paciência para esperar que a realidade, em seus processos, lentamente,
amadureça e dê frutos. Angústia, ansiedade, impaciência e agitação compõem o cardápio
cotidiano de nossos problemas. Mas, também para Han, nós, os contemporâneos,
mal lemos poesia dada a necessidade da lentidão, do vagar, exigidos pela
leitura poética. A perda da capacidade contemplativa repercute em nossas
relações pessoais, mas também, em nossa relação com a linguagem. A linguagem
poética é linguagem contemplativa. Ela demanda tempo, vagar, ruminar, esperar.
A poesia desarma a linguagem como mera informação, e nos coloca no nível da
abertura. Ela nos abre ao inesperado, ao novo, ao inusitado.
Paciência, poesia e contemplação, segundo Han refletindo a partir de Heidegger, são capacidades que não agem. Por isso mesmo, elas nos trazem de volta para onde sempre já estamos. Elas nos abrem ao Pathos, ao padecer e ao sofrer; mas também a Eros, ao desejar e ao exceder. Elas nos lembram que somos seres radicalmente abertos, contemplativos na ação. Portanto, neste ensaio, Byung-Chul Han nos lembra muitas coisas importantes: entre elas, que somos seres contemplativos, que a paciência nos coloca inteiramente na existência e que os poetas são excelentes companheiros de caminhada. Essa última lembrança me traz à memória a profunda consideração do poeta Manoel de Barros que disse: “Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem” (Livro de Pré-Coisas, 1985). Mas isso já é uma outra história.
Pe. Elton Vitoriano
Ribeiro, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia, e reitor da
Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Artigo publicado originalmente
em https://faculdadejesuita.edu.br/correria-versus-lentidao/
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